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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Educação com afeto

"Receber educação é um direito de todos, assegurado pela Constituição Brasileira. No entanto, a maioria permanece à margem desse direito, pois ainda não teve a chance de adentrar no mundo dos saberes, dos conhecimentos e das técnicas.

O homem só se desenvolve plenamente pela educação e por sua relação com os outros, em que a troca de conhecimentos e experiências proporcionarão construir sua história de vida. Para isso, precisamos investir e contribuir com nosso trabalho, na construção de uma pedagogia na qual ele resgate sua auto-estima e demonstre sem nenhum medo a sua capacidade de afeto, ficando feliz com a felicidade do outro. Precisamos construir e reconstruir o mundo a partir de laços afetivos que tornem as pessoas e as situações preciosas, portadoras de valor.

A retomada desses laços será possível por meio de um processo educativo voltado para este fim, buscando novas vertentes que levem o homem a redescobrir-se no que tange a seu afetivo emocional, cabendo aos educadores e professores essa ação incentivadora, valorizando o ser humano, a pessoa, aqui representada na categoria de aluno.

Ao demonstrar afetividade no relacionamento educando/educador, estamos investindo numa educação com qualidade humana, capaz de reverter a aprendizagem mecânica e fria que assola a maioria das salas de aula."


( Trecho do texto de Ester Ratis de Santana: Pedagoga. Mestre em Educação. São Luís / MA. E-mail: eratis@zipmail.com.br - Retirado da Revista do Professor – Ano 23 – Número 92 – outubro/dezembro 2007 )


Fonte: http://paixaodeeducar2.blogspot.com/

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Medo do medo

Lya Luft*
"Querendo ser politicamente corretos, estamos cometendo
um triste engano, deformando histórias e até cantigas
que fazem parte do nosso imaginário mais básico
"
Tenho observado alguns esforços psicopedagógicos no sentido de tornar nossas crianças politicamente corretas - postura que muitas vezes nos transforma em seres tediosos, sem graça nem fervor. Contos de fadas, por exemplo, alimento da minha alma de criança, raiz de quase toda a minha obra adulta, sobretudo romances e contos, foram originalmente - dizem estudiosos -narrativas populares, orais, de povos muito antigos. Assim eles representavam e tentavam controlar seus medos e dúvidas, carentes das quase excessivas informações científicas de que hoje dispomos. Nascimento e morte, sexo, sol e lua, raios e trovões, o brotar das colheitas lhes pareciam misteriosos, portanto fascinantes.
Muito mais recentemente, escritores como Andersen e os irmãos Grimm adaptaram tais relatos ao mundo infantil e criaram suas maravilhosas histórias, que unem, como a vida real, o belo e o sinistro. Uma sereia quer pernas para namorar seu príncipe na praia, mas o sacrifício é terrível, a cada passo de suas novas pernas, dores inimagináveis a dilaceram. Uma princesa, sua família, séquito e criados do castelo dormem um sono profundo, maldição de uma fada má, e só serão libertados pelo príncipe salvador - que, é claro, sempre aparece. Branca de Neve, Rapunzel e dezenas de outros personagens alimentaram nossa fantasia e continuam a alimentar a das crianças que têm sorte, cujos pais e escolas lhes proporcionam contato cotidiano com esses livros.
Porém, faz algum tempo, há um movimento para reformular tais relatos, tirando-lhes sua essência, isto é, o misterioso e até o assustador. Lobos seriam bobalhões e vovozinhas umas pândegas, só existiriam fadas boas, e as bruxas, ah, essas passam a ser velhotas azaradas. Até cantigas de roda seculares tendem a ser distorcidas, pois atirar um pau num gato é uma crueldade, como se fosse preciso explicar isso para as crianças saberem que animais a gente ama e cuida - se é assim que se faz em casa.
Vejo em tudo isso um engano e um atraso. Impedindo nossas crianças do natural contato com essas antiquíssimas histórias, que retratam as possibilidades boas e negativas do mundo, nós as deixamos despreparadas para a vida, cujos perigos entram hoje em seus quartos, rondam escolas e clubes, esperam na esquina com um revólver na mão de um drogado, ou de um psicopata lúcido e frio, sem falar nos insidiosos pedófilos na internet.
Estamos emburrecendo nossas crianças e jovens, mesmo querendo seu bem? E, afinal, o que será o seu bem? Ignorar o que existe de sombrio e mau, caminhar feito João e Maria alegrinhos, não abandonados pelos pais, mas procurando borboletas no mato? Receio que a gente esteja cometendo um triste engano, deformando histórias e até cantigas que fazem parte do nosso imaginário mais básico com arquétipos humanos essenciais.
Em compensação, adolescentes e crianças procuram o encanto do misterioso lendo sobre vampiros, bruxos e avatares, vendo seus filmes e pesquisando na internet. Por que isso? - me perguntou recentemente um pai. Porque, neste momento de altíssima tecnologia, a alma humana busca a expectativa, o segredo e o susto. Precisa conhecer o mal para se acautelar e se proteger, o belo e o bom para crescer com esperança. Mas nós, pedagogos e pais, nem sempre seguros e informados, começamos a querer alisar excessivamente a estrada para eles, não lhes ensinando que o mal existe, assim como o bem, que o belo nos atrai, assim como o monstruoso, e que é preciso desenvolver discernimento (gosto dessa palavra), isto é, a capacidade de entender e distinguir o melhor do pior, a fim de fazer com mais clareza e segurança as inevitáveis escolhas.
Mas se, porque isso nos tranquiliza, tratamos as crianças como imbecis, e queremos nosso adolescente infantilizado por um longo tempo, exigindo-o cada vez menos em casa, na escola e nas universidades - embora deixando que se sexualize de forma precoce e criminosa -, vai ser difícil que tenham informação, capacidade de julgar e escolher, que seriam nosso maior e melhor legado para elas.


Fonte: http://veja.abril.com.br/310310/medo-p-024.shtml



*Lya Luft nasceu no dia 15 de setembro de 1938, em Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul.

Por se tratar de cidade de colonização alemã, as crianças, em quase sua totalidade, falavam alemão, e os livros utilizados nas escolas vinham da Alemanha. Com onze anos, Lya decorava poemas de Goethe e Schiller.

Posteriormente, estudou em Porto Alegre (RS), onde se formou em pedagogia e letras anglo-germânicas.

Iniciou sua vida literária nos anos 60, como tradutora de literaturas em alemão e inglês. Lya Luft já traduziu para o português mais de cem livros. Entre outros, destacam-se traduções de Virginia Wolf, Reiner Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass, Botho Strauss e Thomas Mann. Ela diz que traduzir é sua verdadeira profissão. E que faz tradução para ganhar dinheiro. Mas também porque gosta. Um trabalho que exige respeito. Seu desejo é aproximar o escritor estrangeiro do leitor brasileiro. Confessa que não pode ser inteiramente fiel, porque pode-se correr o risco de ninguém entender nada. Mas não faz um carnaval em cima do texto alheio, não inventa, não cria frases que não existem.

Obras:

  • Canções de limiar, 1964
  • Flauta doce, 1972
  • Matéria do cotidiano, 1978
  • As parceiras, 1980
  • A asa esquerda do anjo, 1981
  • Reunião de família, 1982
  • O quarto fechado, 1984
  • Mulher no palco, 1984
  • Exílio, 1987
  • O lado fatal, 1989
  • O rio do meio, 1996
  • Secreta mirada,1997
  • O ponto cego, 1999
  • Histórias do tempo, 2000
  • Mar de dentro, 2000
  • Perdas e ganhos, 2003
  • Histórias de bruxa boa, 2004
  • Pensar é transgredir, 2004
  • Para não dizer adeus, 2005
  • Em outras palavras, 2006
  • O silêncio dos amantes, 2008